SOUSA

Viva a poesia.

Textos

NATAL SECO
Surgindo na tardezinha que esmaecia no horizonte encrespado pela caatinga, a noite aliviava o calor da terra seca. Sentado no batente da frente, Juninho olhava seu pai apear do jumento, retirar os barris das cangalhas bufentas no lombo do animal e lhe acenar. Lá dentro sua mãe preparava o jantar e ajeitava os irmãos mais novos para dormir. Respondeu ao aceno, mas não se levantou. Preferiu ficar esperando pra ver se lhe trouxera algo da cidade. Geralmente trazia gibis usados que encontrava pelas ruas. Torcia para que desta vez trouxesse algumas revistas sobre o Natal. Mesmo que fosse de natais passados. Esperara o dia todo. Adorava ver a neve. Sonhava com o quintal branquinho e ele brincando de fazer bonecos rechonchudinhos com os irmãos. Muitas vezes, mirava horas a cerca de vara que dividia seu quintal, o nada estendido no solo crepitante, quase imperceptível pelas frestas. Achava que ali um dia poderia ser o palco perfeito para Papai Noel descer com suas renas. E as frestas seriam perfeitamente adaptáveis aos seus olhos brechando o velhinho sumindo na lonjura, descendo por trás de alguma outra cerca.
Seu pai se aproximou. Seu coração celeremente vibrou quando ele parou bem na sua frente, colocou a mão calosa dentro da bolsa e puxou um punhado das revistas que só apareciam no Natal. Após um afago na cabeça, deu-lhe todas. Quis perguntar como estava a cidade, se havia muitas árvores de Natal por lá; conteve-se, porém. Seu genitor não era homem de falar sobre essas coisas. O tempo para o trabalho forçado, naquela terra vazia, não lhe deixava espaço para repassar o que não recebera. Todo dia, para ele, era igual na lavoura de sua cabeça, e o trespassar das portas do temido ano dois mil não o transformou. Desistiu de qualquer inquirição. Aceitou o afago e correu para a cozinha. Lá, a lamparina e a mãe lhe dariam um pouco de luz natalina.
Deitou-se sonhando com a neve das revistas que substituíam os gibis uma vez por ano. Quando percebeu que todos dormiam, desceu cuidadosamente da rede. Rastejou lentamente por debaixo das outras. Com passos de seda, foi até a cozinha. Pegou a lamparina apagada e a caixa cheia de fósforos, ao lado, sobre a mesa. Tateou. Chegou à porta. Suas mãos abriram os ferrolhos quebrando, um pouco, a sinfonia do grilo que pulou para encontrar um outro que o esperava para a ceia natalina (talvez; pelo que deduzira). Parou. Não queria que ninguém se acordasse. Sem som oriundo do quarto, saiu. Um vento de deserto deslizou em seu rosto e quis ficar dentro de casa. Encostou a porta e acendeu a lamparina. À sua frente, imaginou o juazeiro iluminado, com pequenos sinos, anjos vermelhos, bolas douradas e vermelhas, Papais Noéis com barbinhas brancas... Igual ao pinheiro das revistas dos anos noventa. (Será que ainda seria assim o último lançamento de árvores de Natal?) As pedras ao lado do tronco pareciam as caixinhas de presentes em que cactos espinhosos as abririam na sua esperança.
Sentou sobre a cisterna e procurou mais alguma coisa que a luz da lamparina pudesse lhe permitir. Por trás do juazeiro, tudo era estrelas que descortinavam suas ilusões. A copa ficou nua. Seu pensamento fantasiou uma rena e travestiu o jumento deitado perto da cerca. Faltava só o Bom Velhinho de vermelho (bem que ele poderia vir de verde...!). O animal levantou e perdeu o sono. Correu pela porteira de trás e foi dormir noutro canto. Ele lhe deu asas e correu para as brechas da cerca. Só o breu... Seu pensamento o separava das luzes imaginárias da pequena cidade distante léguas. O grilo suscitava hinos de Natal suaves e penetrantes como cantos gregorianos ninando um menino num berço de ouro. Na escuridão, as pernas do jumento batendo e revirando algum metal contra outro feziam eco de sinos. Faltavam os fogos. Desistiu deles. Poderia acordar seu pai, então não poderia se explicar. No veludo escuro da noite, não poderiam compartilhar as fotos de Natal das revistas, e a lamparina poderia distorcê-las ou mesmo queimá-las. Deixá-lo sem nada para passar aos futuros filhos.
Retirou o pão agasalhado dentro de um saco perto do tronco da árvore, que escondera antes do jantar, e comeu sentado na cisterna, (que noite de Rei!). Enquanto comia, pensou em caminhar além da cerca, mas tinha medo de o querosene acabar o seu reinado. Nunca havia feito isso, quem sabe no próximo Natal pudesse prover mais combustível... Fartou-se. Esperou renas do céu. Não quis esperar o sol; ele apagaria toda a festa.
Sem ter como registrar a dimensão do tempo, retornou à sua rede. Matutou sobre o que contaria aos futuros rebentos, mas dormiu sonhando com a próxima noite de Natal, com as revistas e com uma boa ceia bem distante.
JOSÉ SOUSA
Enviado por JOSÉ SOUSA em 24/12/2011


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